Jabá mensalão é
FICA COMBINADO que os artistas que pagam jabá não podem mais ir a público
chamar político de corrupto. Neste momento em que se fala tanto em mensalão,
é bom lembrar que o jabá é o mensalão das rádios, das TVs, dos
programadores de grandes eventos públicos... O negócio funciona
exatamente da mesma forma e pode ser caracterizado como crime de corrupção.
Pagar por fora em troca de privilégios e favores é crime. Isso é o que
acontece hoje em quase todas as rádios e redes de TV do país, com excessão da
rede pública, que cumpre à risca o papel de abrir as portas para todos...
No momento em que um artista grande paga, mesmo através da sua gravadora,
mesmo não sendo em espécie e mesmo sem saber exatamente quanto está
pagando, ele está acabando com a carreira de centenas de artistas
independentes, de técnicos de estúdios pequenos, de compositores, de músicos,
de artistas gráficos... É fácil para as grandes gravadoras culparem
a pirataria pela falência do mercado musical no Brasil. Mas ninguém fala
sobre o jabá, monstro criado em casa, pelas próprias gravadoras. No
Brasil, os selos afundaram. Iniciativas de importância fundamental como
Velas , Kuarup , Som da Gente e tantos outros foram soterrados pelas leis
ilegais do mercado. A Dubas, selo de Ronaldo Bastos, a Biscoito Fino, a Rob
Digital, a Trama. Todos são corajosos guerreiros que trabalham para
colocar música no mercado e deixar a roda girar, a fila andar e os artistas
escoarem sua criação... Artista que paga jabá não fala mal de patrão!
Ou então pode, corajosamente, ir à TV dizer: “Vou abrir meu selo
independente porque não concordo com os duzentos picaretas ou com os não
sei quantos políticos isso-e-aquilo”. Pagar jabá e fazer música de
protesto é falta de vergonha na cara...
publicado no Jornal do Brasil em 14/11/2005