Antonio Meneses e as Suítes de Bach para violoncelo solo na Sala Cecília Meirelles.

 

Tem que ir, tem que ver, tem que ouvir, tem que respirar fundo e se deixar penetrar por aquela mágica: um homem, um instrumento e a voz do deus da música falando através dele.

Adoro ir a salas de concerto, ainda mais quando o tempo fica assim, chuvoso e friozinho. Homens grisalhos usam golas rolê pretas e calças pretas. Mulheres usam écharpes de seda, brincos antigos, casacos de couro fora de moda. Botas com saias, batons cor de vinho, pérolas. Pra ouvir aquela música, há que se vestir bem. Lindo isso...

Jovens estudantes de música levam seus instrumentos e sentam na parte mais barata da platéia. Celulares tocam durante o show, uma mulher reclama com a dona do telefone, que retruca, ríspida: "Você tem filhos?" Ao que a outra responde com uma gargalhada cheia de sarcasmo, porém muda, pra nao atrapalhar o concerto.

Deveriam ser proibidos os perfumes doces em salas de concerto, aliás em todo o mundo. Ter-mi-nan-te-men-te proibidos! Quanto mais clássicas as mulheres, mais doces seus perfumes?

No intervalo, a gente compra balinha do lado de fora, na rua da Lapa, onde já tem um carro de xis-tudo aberto, tocando um funk batidão, e por onde os vendedores de cachaça - a metro, e cruelmente flavorizadas com abacaxi, hortelã e morango - já circulam esperando o movimento da noite.

Termina o intervalo. Voltamos à Sala, passando pelo foyer lotado demais, cheio de fumaça de cigarros e cheiro de café. Sinto pena do Rio de Janeiro, pena do Brasil, pena de mim.

A sala é novamente envolta pela sublime música e pela respiraçao dos ouvintes educados, que esperam pra tossir entre os movimentos e sabem exatamente quando acabou a peça e já é permitido aplaudir.

Mas pena, mesmo, eu sinto, sobretudo, quando vejo aquela bichinha magra, solitária, barbuda, feia, excluída até do mundo das bichas, das barbies lindonas, perfumadas com o último lançamento das importadoras. Imagino-as voltando para casa, sozinhas, tomando um copo de leite morno com cream crackers com margarina, em frente à TV, até que chegue a hora de dormir.

Pra isso serve a música de Bach. Para provar que a beleza é privilégio de todos...