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Habituado a corridas de fundo como a completíssima biografia de João do Valle, Pisa na fulô mas não maltrata o carcará – vida e obra de João do Vale, e a romances como Sofá Branco e, mais recentemente, Os atalhos de Samantha, Marcio Paschoal gosta mesmo de se definir como um escritor de humor.
Humor ele tem, de sobra, como podemos conferir nos seus dois livros dedicados ao gênero: Cada louco com a sua mania, a quatro mãos com Jaguar, e Horóscopo sexual para praticantes. Em seu mais recente livro, Válidos Prazeres (Ed. Five Star), Marcio optou por deixar aflorar sua seriedade e sua visão arguta do mundo outsider em forma de contos. Ele apenas alinhava o texto com humor, o que serve como uma parada para que o leitor pegue fôlego e continue se embrenhando pelos caminhos ora obscuros, ora fantásticos, ora aflitivos, mas sempre absolutamente surpreendentes, dos prazeres pessoais e intransferíveis de seus personagens.
O vale dos prazeres de Marcio Paschoal tem um sabor agridoce, mas, desde os agradecimentos, anuncia o sorriso que ficará nos lábios em toda a leitura. O texto é ágil e muitas vezes deixa um gosto de story line, de que vale a pena esperar pelo desenvolvimento no capítulo seguinte. Os contos de Marcio guardam um parentesco que às vezes sugere continuidade. A tensão do absurdo, do riso, das soluções sem redenção possível é levada até o último minuto dos contos. Ao final, ele resolve a charada e clareia o horizonte, aí, sim, muitas vezes com humor.
O livro começa com o conto A conspiração, em que Marcio anuncia um clima urbano de paranóia, perseguição, com personagens delirantes. Junto com Réquiem para um estranho no cinema, Kafka e Muletas, o autor faz um grupo de contos de aqui-se-faz, aqui-se-paga. Ao longo do livro, há a repetição de temas, contos primos que dão vontade de rearrumar a ordem das páginas, para que as temáticas irmãs sejam esgotadas, enfatizadas, e o leitor confortado de uma vez.
Em
A filha do baterista, Marcio
mostra sua habilidade em trafegar no tempo. Hábil com as palavras, engraçado
em sua crueldade, seus personagens são pessoas absolutamente comuns com seus
segredos sórdidos revelados. A música – Marcio atua, também, como crítico
musical - é um ilustrador permanente do texto dos Válidos
prazeres, e, por isso mesmo, o
tema Meu guri poderia agrupar
os contos Pelado, Doutor
e Culpado, onde o escritor mostra o talento para o drama seco. Sem
perdão.
Olhos vermelhos, As tumbas do saber e Divinas tetas têm um clima surrealista, muito presente no livro e nos personagens fronteiriços, como a bichinha do interior e o sobrinho do prefeito, o matador de aluguel que come feijoada, a diarista em dia de fúria, o casal de bêbados. Sempre agudos, sempre ácidos, desconfortáveis, humanos. O final nunca é feliz, mas faz rir com uma frase-tirada, com desfechos bem amarrados.
Márcio costura suas idéias com pensamentos de outrem, como quem convida colegas para ilustrar generosamente seu texto. E vai alternando, habilmente, as personas de crítico voraz, maridão, piadista infame, mulher, dono-de-casa, humorista. As citações são aperitivos: filosofia, história e clichês. Tudo bem temperado, resultando em souvenirs da fronteira. Cartões postais com instantâneos da margem. Sem redenção.
Esta resenha literária foi publicada no Caderno B, Jornal do Brasil, em setembro de 2005.